Bruxelas: O aparente regresso à normalidade depois do terror

Depois dos ataques bárbaros no coração de Paris, nas praias da Tunísia, a interminável guerra civil na Síria, e depois de algumas ameaças a outros países europeus, o auto-proclamado Estado Islâmico voltou a atacar a Europa, desta vez no seu “coração”, Bruxelas, onde estão sediados os mais importantes órgãos de soberania do velho continente.

Depois daquela fatídica manhã de 22 de Março de 2016 muito se escreveu sobre o que realmente aconteceu no Aeroporto de Zaventem e na estação de Metro de Maelbeek. Foram muitas as horas de emissões televisivas, imensas linhas de jornais que relataram o cenário de horror, de pânico e de medo vivido na capital da Europa.

Numa pequena viagem de trabalho, tive a oportunidade de visitar Bruxelas e aproveitei para sentir o pulso a uma cidade que tenta recuperar a normalidade depois do terror.

Hoje, sensivelmente um mês depois dos horrendos atentados, em cada esquina, avistam-se policias e militares fortemente armados prontos a intervir à mínima solicitação. Vê-se, também, uma cidade a tentar sarar as feridas de um ataque sangrento que deixará, para todo o sempre, marcas no seu orgulho. Mas vê-se, acima de tudo, uma cidade a tentar “seguir em frente”.

Em conversa com um colega, ele disse-me que, por estes dias, o medo de andar em transportes públicos, ainda assombra a vida de quem lá vive! Eu perguntei-lhe: será que um dia, todas as essas pessoas conseguirão ultrapassar esse medo? Não precisou de me responder… A expressão no seu rosto disse-me tudo.

Decidi visitar o local onde o povo belga presta homenagem aos 35 mortos e mais de 300 feridos: o Palácio da Bolsa. O local tornou-se um “santuário” e um local de paragem obrigatória para quem visita a cidade. São inúmeros os visitantes que se deslocam  e que , em silêncio, prestam a sua homenagem a quem perdeu a vida num ataque incompreensível. Eu também prestei a minha homenagem e as linhas que se seguem descrevem o que senti.

Durante os cerca de 20 minutos que estive no Palácio da Bolsa, testemunhei 3 situações que me marcaram:

Sentado na escadaria do palácio estava um casal, na casa dos 30 anos, abraçados e assim permaneceram durante longos minutos. A forma como se abraçaram deu a entender que estavam ali a chorar uma perda, a perda de um ente-querido naquela manha que jamais a memória esquecerá! Depois, consolaram-se mutuamente e ficaram, ali, em silêncio, e de olhar brilhante e vago fitando o horizonte..

Uma senhora sentada no meio de uma multidão de flores… Via-se que era uma pessoa crente. Na sua mão direita estava um terço religioso e, em silêncio, rezava. O que mais me impressionou, não foi o facto de ela estar ali, a rezar, mas sim a intensidade, a concentração e a devoção com que o fazia.

Fazia-o com a convicção que a força da sua oração podia mudar o mundo. Mas a qual, infelizmente, não trará de volta quem partiu deste mundo.

O seu rosto era gelado, frio, e a sua expressão impenetrável! Nos poucos instante em que a observei, o único gesto que lhe identifiquei foi, na sua mão direita, o avançar de conta após conta à medida que rezava. Tal como outros que o fizeram, senti-me tentado a fotografá-la, mas, por respeito ao que aquele momento significava para as suas crenças, decidi não o fazer. A melhor fotografia que podia tirar foi aquela que ficou na minha mente.

Por fim, e talvez, a mais marcante de todas: Por entre os imensos ramos de flores secos, murchos que ali foram depositados, por entre as imensas velas  que ali foram colocadas, estava uma foto de menina, entre os 6 e os 10 anos, de sorriso aberto, simples, doce, inocente, em plena idade onde tudo deveria ser um mundo encantado. Um mundo onde a sua única preocupação devia ser escolher com qual boneca ia brincar!

Eu assumi que aquele menina tenha sido, apenas uma, das 35 vitimas desta barbaridade inqualificável que esta cidade foi alvo e nesse momento tive com um aperto no coração… e vim-me embora!

Faz esta quinta-feira, dia 22, um mês que tudo aconteceu… e eu continuo a colocar-me as mesmas perguntas: Porquê? Para quê? Certamente serão estas e muitas outras, as perguntas que o povo belga se coloca.

Infelizmente, ninguém obterá as respostas que deseja e nem a captura dos presumíveis autores desta e de outras barbaridades ajudará aquela cidade no processo de “cura”, porque eles nunca esquecerão a manha do dia 22 de Março de 2016.

Não esquecem eles e nem esquecerá o mundo!

Um novo projeto

Amigos, apresento-vos o”Brownook”, o meu novo projeto pessoal.

“Brownook” nasce da junção de dois palavras em inglês: “Brown” e “Look” que representa o meu objectivo para este blog: a forma como os meus olhos vêem o mundo.

“Brownook” será um espaço de opinião pessoal, partilha de experiências, entre outros… Fiquem atentos e espero que gostem.